Excesso de vinho supera em três anos o consumo mundial e pressiona mercado global

    Produção acima da demanda revela crise estrutural no setor e expõe dependência de grandes importadores, enquanto consumo global encolhe

    Excesso de vinho supera em três anos o consumo mundial e pressiona mercado global

    O mercado mundial de vinhos enfrenta uma crise estrutural, com a produção excedendo amplamente o consumo. Um estudo recente do Instituto Superior Miguel Torga (ISMT), em Coimbra, aponta que o estoque global acumulado chega a 717 milhões de hectolitros, volume equivalente a mais de três anos de consumo mundial. Essa disparidade reflete uma perda significativa da participação do vinho no consumo de bebidas alcoólicas globais, que caiu de mais de 30% em 1960 para 12,5% atualmente.

    Entre 2000 e 2023, os índices mostram que a produção mundial manteve uma média de queda tímida, de 0,3% ao ano, enquanto o consumo recuou em ritmo mais acelerado, cerca de 1,75% ao ano. “O setor continuou a produzir a ritmos que o mercado já não consegue absorver”, afirma Maria Cunha, docente do ISMT e coautora do estudo. Essa inércia na oferta gera excesso de vinhos armazenados, pressionando produtores e mercados.

    A análise abrangeu 27 países, responsáveis por aproximadamente 86% do consumo global e 80% das importações, divididos entre produtores autossuficientes e importadores. Um dos alertas foi a dependência excessiva dos grandes consumidores importadores, como Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, que juntos respondem por 45% do consumo mundial e cerca de dois terços do valor financeiro do comércio internacional de vinhos.

    O mercado chinês também foi destaque no estudo. Entre 2017 e 2023, o consumo de vinho caiu de 19,3 para 6,8 milhões de hectolitros, confirmando dificuldades para consolidar o consumo em um país onde o vinho representa apenas 3% do álcool ingerido. Mesmo com crescimento anterior, esse mercado não conseguiu reverter a tendência global de retração.

    Além disso, a pressão do excesso de oferta já provoca medidas nos grandes produtores tradicionais. A França, por exemplo, aprovou a redução de cerca de 4% da área vitícola para enfrentar o estoque crescente. Portugal, integrante dos países produtores autossuficientes, está entre os mais vulneráveis à desaceleração da demanda internacional, pois apesar de produzir 78% do vinho mundial, absorve apenas 40% do consumo global.

    O estudo indica que até 2030 o consumo global pode cair para cerca de 186,5 milhões de hectolitros, exigindo do setor um reposicionamento estratégico. A sobrevivência estará vinculada à capacidade de diferenciação dos produtos e à aposta em segmentos de maior valor agregado, já que o crescimento baseado em volume e preço tornou-se insustentável.

    Maria Cunha ressalta que “o limite do comércio mundial de vinho deixou de estar nas tarifas e passou a estar na própria procura”, alertando para a necessidade de adaptação do setor a um mercado seletivo e menos orientado para quantidade. O estudo foi produzido em parceria com universidades ucranianas e destaca a transformação global do consumo como fator central dessa mudança estrutural.

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