Excedente global de vinho acumula volume equivalente a três anos de consumo mundial
Produção excessiva desafia mercado global do vinho com consumo em queda e pressão crescente sobre principais exportadores

Um estudo recente do Instituto Superior Miguel Torga (ISMT), em Coimbra, revelou que a produção mundial de vinho tem superado o consumo de forma estrutural, gerando um excedente acumulado equivalente a mais de três anos de consumo global. Entre 2000 e 2023, as caves do planeta armazenaram cerca de 717 milhões de hectolitros além do que foi consumido, apontam os dados analisados pelos investigadores portugueses e ucranianos.
Segundo a docente do ISMT e coautora da pesquisa, Maria Cunha, essa assimetria reflete uma “inércia da oferta”, já que, embora a produção tenha recuado ligeiramente desde 2018, em média 0,3% ao ano, o consumo caiu mais significativamente, em torno de 1,75% ao ano. O resultado é um ritmo de produção que ultrapassa a capacidade do mercado absorver o vinho produzido.
A investigação enfocou 27 países que representam cerca de 86% do consumo mundial e 80% das importações, segmentando-os em produtores autossuficientes e países importadores. Esse recorte mostrou que o setor depende fortemente de poucas nações importadoras, como Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, que respondem por aproximadamente 45% do consumo global e concentram dois terços do comércio internacional em volume e valor.
Um exemplo desse cenário é a China, cuja demanda despencou de 19,3 para 6,8 milhões de hectolitros entre 2017 e 2023. O país enfrenta dificuldades para consolidar o vinho como bebida habitual, já que ele representa menos de 3% do consumo total de álcool. Mesmo um possível retorno ao ritmo de crescimento anterior a 2017 não seria suficiente para reverter a tendência global de queda nas importações.
Consequências dessa dinâmica já são visíveis nos principais centros produtores. Na França, por exemplo, foi autorizado o arranque de cerca de 4% das áreas de cultivo com objetivo de reduzir o excedente estrutural. Portugal também se encontra vulnerável frente ao abrandamento da procura internacional, pois, embora os produtores autossuficientes concentrem 78% da produção mundial, abrangem apenas 40% do consumo.
Os pesquisadores apontam que a tendência persistirá ao longo desta década, com o consumo global podendo cair para cerca de 186,5 milhões de hectolitros até 2030. Para enfrentar esse panorama, o setor precisará se ajustar a um mercado mais seletivo, com ênfase na diferenciação e no valor agregado das marcas, já que a estratégia de crescimento baseada apenas em volume e preço se mostra cada vez menos viável. A resistência do mercado diante do excesso de oferta confirma que o desafio do comércio de vinho não está mais em barreiras tarifárias, mas na própria demanda dos consumidores.
